
Por décadas, comprar em Ciudad del Este foi sinônimo de viagem — atravessar a Ponte Internacional da Amizade, negociar em dólar ou guarani, carregar sacolas de volta para casa. Essa rotina, tão característica da fronteira entre Brasil e Paraguai, acaba de ganhar uma alternativa inteiramente digital. Os Correios anunciaram, em 17 de agosto, o lançamento do Correios Packet em nova configuração terrestre, permitindo que consumidores brasileiros comprem diretamente nos sites de varejistas paraguaios e recebam a encomenda em qualquer endereço do país, sem precisar cruzar a fronteira fisicamente.
O momento desse lançamento não é aleatório. Ele acontece dentro de uma janela de poucos dias que também viu o governo federal promulgar o Decreto nº 13.104, oficializando o Acordo sobre Comércio Eletrônico do Mercosul — norma que estabelece diretrizes para integrar o mercado digital entre Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. A combinação dos dois movimentos sugere que a digitalização do comércio fronteiriço deixou de ser iniciativa isolada de uma empresa específica para se tornar parte de uma agenda regional mais ampla.
Como funciona o novo serviço na prática
A operação do Correios Packet contempla, neste primeiro momento, dois varejistas de Ciudad del Este — Cellshop e New Zone Importados —, ambos homologados no Programa Remessa Conforme, da Receita Federal, o que os habilita formalmente a vender para consumidores brasileiros. O fluxo logístico funciona por transporte terrestre — o pedido é processado em Ciudad del Este, atravessa a fronteira até Foz do Iguaçu e segue até o Centro Internacional dos Correios em Curitiba, onde passa pelo desembaraço aduaneiro antes de entrar na rede de distribuição nacional.
O serviço aceita encomendas de até 30 quilos e oferece rastreamento completo durante todo o percurso. Depois de liberado o desembaraço, a entrega segue os mesmos prazos já praticados para encomendas nacionais dentro da malha dos Correios — uma proposta que elimina, na prática, a necessidade de o comprador brasileiro se deslocar fisicamente até a fronteira para ter acesso ao catálogo de produtos historicamente associado a Ciudad del Este, como eletrônicos, acessórios, perfumes e roupas.
O que muda na tributação dessas compras
Um ponto que exige atenção de qualquer consumidor interessado nesse novo serviço é que, apesar da compra acontecer em português, em reais e sem sair de casa, trata-se juridicamente de uma importação — e, portanto, segue as mesmas regras tributárias já aplicadas a qualquer compra internacional feita em plataformas certificadas pela Receita Federal dentro do Remessa Conforme.
Compras de até US$ 50 estão isentas do Imposto de Importação, desde a mudança de regra que entrou em vigor em maio de 2026, pagando apenas o ICMS do estado de destino, que varia entre 17% e 20% conforme a unidade federativa. Já compras entre US$ 50,01 e US$ 3.000 pagam Imposto de Importação de 60% sobre o valor aduaneiro — que soma o valor do produto ao frete —, com um desconto fixo de US$ 30 aplicado sobre o imposto calculado, além do próprio ICMS estadual, que incide de forma cumulativa também sobre o valor do imposto federal já calculado.
Vale reforçar que, como as lojas participantes já operam dentro do Remessa Conforme, esses tributos costumam ser calculados e cobrados no momento da compra, o que reduz o risco de surpresas fiscais na chegada da encomenda — um benefício direto de comprar através de varejistas formalmente habilitados, em vez de canais informais de importação.
Por que esse lançamento acontece justamente agora
O contexto por trás desse movimento ajuda a explicar sua relevância estratégica. O lançamento acontece em meio a um aumento das regras de tributação sobre produtos comprados no exterior e à valorização do dólar frente ao real, dois fatores que já vinham elevando o custo de parte das compras internacionais tradicionais feitas pelo consumidor brasileiro. Nesse cenário, formalizar e facilitar o acesso digital a um polo comercial historicamente competitivo em preço, como Ciudad del Este, mesmo dentro das novas regras tributárias, ainda representa alternativa relevante para o consumidor que já tinha esse hábito de compra consolidado.
Do lado regulatório, a promulgação do Decreto nº 13.104, oficializando o Acordo sobre Comércio Eletrônico do Mercosul, reforça essa mesma direção em escala regional. Entre os avanços trazidos pelo acordo está a isenção de tarifas alfandegárias sobre a transmissão de bens digitais, como softwares, e-books, serviços e licenças virtuais, além de diretrizes voltadas a desburocratizar operações de comércio eletrônico entre os países-membros do bloco. A publicação dessa norma ocorre em um momento simbólico, coincidindo com a estreia de sites com domínio “.br” por grandes lojas de departamento paraguaias, voltados especificamente ao atendimento direto do consumidor brasileiro.
O que isso representa para o comércio fronteiriço tradicional
Para o varejo físico da região trinacional — formada por Brasil, Paraguai e Argentina —, essa digitalização representa tanto oportunidade quanto ponto de atenção. De um lado, varejistas paraguaios ganham acesso a um mercado consumidor consideravelmente maior do que o fluxo de turistas que atravessa fisicamente a fronteira, podendo alcançar consumidores de qualquer estado brasileiro sem depender exclusivamente do deslocamento físico do comprador até Ciudad del Este.
De outro lado, esse mesmo movimento pode reduzir o fluxo presencial de turismo de compras que historicamente sustentou parte relevante da economia local de cidades como Foz do Iguaçu, já que uma parcela dos consumidores que antes viajava especificamente para comprar pode passar a preferir a conveniência da compra digital com entrega em casa, mesmo pagando os tributos de importação já embutidos no processo.
O que representa para o e-commerce brasileiro como um todo
Esse tipo de iniciativa se conecta a um contexto mais amplo de expansão das compras brasileiras vindas do exterior. As importações vindas da China, por exemplo, somaram US$ 38,5 bilhões apenas no primeiro semestre de 2026, reforçando que o consumidor brasileiro já demonstra apetite consolidado por compras internacionais formalizadas, quando o processo de tributação e entrega é claro e previsível.
Para operações de e-commerce nacionais que competem diretamente com produtos de origem internacional em categorias como eletrônicos e acessórios, esse tipo de facilitação logística e regulatória amplia ainda mais a pressão competitiva já existente. Ao mesmo tempo, para os próprios Correios, a iniciativa reforça uma estratégia de diversificação de receita, posicionando a estatal como ponte logística formal entre varejistas internacionais e o mercado consumidor brasileiro — um papel que tende a se expandir para outros países e varejistas conforme o modelo se consolidar.
O que esperar dos próximos passos
Com apenas dois varejistas participando dessa primeira fase, é provável que os Correios avaliem os resultados iniciais dessa operação antes de expandir o serviço para outras lojas de Ciudad del Este ou até mesmo para outras regiões comerciais da fronteira com o Paraguai. A combinação entre esse lançamento pontual e a formalização mais ampla do Acordo sobre Comércio Eletrônico do Mercosul sugere que o comércio digital transfronteiriço entre os países do bloco deve seguir avançando ao longo dos próximos meses, com potencial de novos acordos e facilitações regulatórias semelhantes surgindo entre Brasil e os demais membros do Mercosul.
Para o consumidor brasileiro, o recado prático é claro — comprar em Ciudad del Este já não exige mais, necessariamente, a viagem física até a fronteira, mas continua exigindo atenção às regras tributárias de importação, que seguem se aplicando integralmente mesmo em uma compra feita inteiramente em português, a partir de casa.
O lançamento do Correios Packet para compras em Ciudad del Este, somado à promulgação do Acordo sobre Comércio Eletrônico do Mercosul, sinaliza um movimento mais amplo de digitalização e integração regional do comércio fronteiriço na América do Sul. Para o consumidor brasileiro, a conveniência de comprar sem sair de casa chega acompanhada da mesma responsabilidade tributária de qualquer importação formal. Para o e-commerce nacional, esse tipo de facilitação reforça a necessidade de acompanhar de perto a evolução das regras de comércio transfronteiriço, que seguem ganhando espaço dentro da agenda regulatória do bloco.
FAQ
O que é o Correios Packet e como ele funciona para compras no Paraguai?
É um serviço logístico dos Correios que permite a consumidores brasileiros comprar diretamente em sites de varejistas de Ciudad del Este e receber a encomenda em qualquer endereço do Brasil, com transporte terrestre, desembaraço aduaneiro em Curitiba e rastreamento completo do pedido.
Quais varejistas paraguaios já participam desse serviço?
Neste primeiro momento, a operação contempla a Cellshop e a New Zone Importados, ambas homologadas no Programa Remessa Conforme da Receita Federal, o que as habilita formalmente a vender para consumidores brasileiros.
Como funciona a tributação dessas compras?
Compras de até US$ 50 são isentas de Imposto de Importação, pagando apenas ICMS estadual entre 17% e 20%. Compras entre US$ 50,01 e US$ 3.000 pagam Imposto de Importação de 60% sobre o valor aduaneiro, com desconto fixo de US$ 30, além do ICMS estadual aplicado também sobre o valor do imposto federal.
O consumidor precisa se preocupar com surpresas fiscais na entrega?
O risco é reduzido, já que as lojas participantes operam dentro do Remessa Conforme, o que geralmente significa que os tributos são calculados e cobrados no momento da compra, e não apenas na chegada da encomenda ao Brasil.
O que é o Acordo sobre Comércio Eletrônico do Mercosul promulgado recentemente?
É uma norma oficializada pelo Decreto nº 13.104, que estabelece diretrizes para integrar o mercado digital entre Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, incluindo isenção de tarifas alfandegárias sobre bens digitais e desburocratização de operações de comércio eletrônico entre os países do bloco.
Esse serviço substitui a necessidade de viajar até Ciudad del Este para fazer compras?
Para quem busca especificamente os produtos disponíveis nas lojas já habilitadas, sim, o serviço elimina a necessidade do deslocamento físico. No entanto, o comprador ainda precisa considerar prazos de entrega e a tributação de importação aplicável, fatores que não existem em uma compra presencial concluída no mesmo momento.

