
A disputa pela compra do dia a dia do brasileiro ganhou nesta terça-feira, 28, mais um protagonista de peso. A 99, aplicativo de mobilidade controlado pela chinesa DiDi, expandiu o 99Compras — sua vertical de entregas de supermercado, farmácia e itens de conveniência — para a cidade de São Paulo e mais de vinte municípios da região metropolitana, incluindo Osasco, Barueri, Mauá, Carapicuíba, Itaquaquecetuba e Guarulhos. A operação chega à capital paulista com investimento de R$ 100 milhões, cerca de 3 mil parceiros comerciais e mais de 200 mil entregadores parceiros já habilitados a atender essa nova frente de negócio.
O movimento não é uma aposta isolada. Depois de estrear em Goiânia em abril e expandir gradualmente para o ABC Paulista e Guarulhos entre junho e julho, a chegada a São Paulo representa o teste mais ambicioso da estratégia até agora — a cidade mais populosa do país, com o consumidor mais disputado do território nacional por praticamente todos os grandes players de delivery e quick commerce já estabelecidos.
Como funciona o modelo de entrega do 99Compras
Diferente do delivery tradicional de restaurantes, em que o próprio estabelecimento prepara o pedido rapidamente, o modelo de compras de supermercado e farmácia exige uma etapa logística adicional. O estoque permanece integralmente com os varejistas parceiros — Americanas, Atacadão, Carrefour, Cencosud, Cobasi, Coop, Nissei, Petz, St. Marche e Ultrafarma estão entre os nomes já integrados à plataforma —, e a separação dos produtos dentro da loja é realizada por um funcionário do próprio varejista, o chamado picker, antes de o pedido seguir para o entregador.
Segundo Luis Felipe Gamper, diretor sênior de logística da 99, reduzir o tempo de espera do entregador dentro da loja é uma das prioridades centrais da operação, já que esse intervalo impacta diretamente tanto a velocidade de entrega ao consumidor final quanto a produtividade e a renda do próprio entregador parceiro. O tempo médio de entrega divulgado pela companhia é de 24 minutos, embora relatos de usuários mostrem variação relevante conforme a loja e a categoria do produto solicitado.
Um ajuste operacional que revela a complexidade do quick commerce
Um detalhe técnico levantado pela própria companhia ilustra bem por que entregar mercadoria de supermercado é operacionalmente mais complexo do que entregar uma refeição. Segundo Gamper, a comida costuma vir em embalagem pequena que, na pior das hipóteses, pode ser recebida por um porteiro em nome do cliente. Já uma compra de supermercado não oferece essa mesma flexibilidade, o que exigiu que a 99 ajustasse a precisão do horário de entrega para garantir que sempre houvesse alguém disponível para receber o pedido no momento certo.
Esse tipo de ajuste, aparentemente pequeno, reflete um aprendizado operacional relevante para qualquer negócio que pretenda migrar de delivery de refeição para delivery de mercadoria física de maior volume — a lógica de precisão de horário se torna consideravelmente mais rígida, exigindo maior sincronia entre separação do pedido na loja, deslocamento do entregador e disponibilidade do consumidor para recebimento.
Por que a farmácia se destaca entre as categorias mais buscadas
Entre as categorias disponíveis na plataforma — supermercado, farmácia, pet shop, bebidas, floricultura, beleza, brinquedos, presentes e utensílios domésticos —, a farmácia já se consolida como uma das mais relevantes em volume de pedidos. Em Goiânia, primeira cidade a receber o serviço, essa categoria já representa 28% do total de compras realizadas na plataforma. Durante o período de testes na Grande São Paulo, a farmácia já respondia por 22% dos pedidos, mesmo antes do lançamento oficial na capital.
Os produtos mais procurados nessa categoria incluem itens de reposição frequente e alta previsibilidade de necessidade imediata, como fraldas, produtos de higiene pessoal, itens de nutrição infantil, preservativos, testes de gravidez e analgésicos — um padrão de consumo que reforça a lógica central do quick commerce, atender necessidades pontuais e urgentes que o consumidor prefere resolver rapidamente, sem deslocamento físico até uma loja.
A multimodalidade como diferencial competitivo da 99
Um dos pilares estratégicos que sustenta a entrada da 99 nesse segmento é a multimodalidade de seus entregadores parceiros. O mesmo profissional cadastrado na plataforma pode transportar passageiros através do serviço de mobilidade tradicional, entregar refeições pelo 99Food e agora também realizar compras pelo 99Compras, tudo dentro do mesmo aplicativo e cadastro. Essa flexibilidade amplia as oportunidades de geração de renda ao longo do dia para o entregador, ao mesmo tempo em que permite à empresa escalar rapidamente a nova operação aproveitando uma base já consolidada de mais de 200 mil profissionais parceiros na região metropolitana de São Paulo.
Como parte da estratégia de lançamento, a companhia também oferece incentivos financeiros específicos para atrair entregadores para essa nova vertical, com ganhos por corrida que podem chegar a R$ 20 durante o período inicial de operação na capital paulista — um movimento clássico de aquisição acelerada de oferta em um mercado de dois lados, em que tanto consumidores quanto entregadores precisam ser conquistados simultaneamente para que a plataforma ganhe tração.
Um mercado já disputado por gigantes consolidados
A entrada da 99 nesse segmento não acontece em terreno vazio. O delivery de itens de supermercado e farmácia já reúne players estabelecidos como iFood, Amazon, Mercado Livre e operações especializadas como Shopper e Daki, além de disputas judiciais que já emergiram nesse mercado — caso da denúncia protocolada pela Trela no Ministério Público de São Paulo contra a Shopper, por suposta prática anticoncorrencial em contratos de exclusividade com fornecedores.
O iFood, principal concorrente direto nesse segmento, já consolidou posição relevante através da compra de participação minoritária na Shopper em 2024 e de parcerias com redes como Carrefour, Pão de Açúcar e Assaí. A Amazon, por sua vez, já expande seu próprio serviço de entrega ultrarrápida, o Amazon Now, em parceria com a Rappi, com foco crescente em alimentos frescos e itens de mercearia. A diferenciação que a 99 busca construir nesse ambiente já disputado está justamente na integração com sua base consolidada de mobilidade — mais de 60 milhões de usuários ativos no Brasil que já utilizam o aplicativo para outras finalidades e que a companhia pretende converter também em consumidores recorrentes de itens do dia a dia.
O que esse movimento representa para o consumidor e para o varejo local
Segundo Talita Poleto, diretora comercial do 99Compras, os dados de uso já revelam um padrão de comportamento relevante — 57% dos usuários recorrem ao serviço para comprar itens pontuais que faltaram em casa, enquanto 35% utilizam a plataforma para reposição planejada de itens recorrentes. Esse padrão reforça que o quick commerce já não é apenas sobre urgência extrema, mas também sobre conveniência para o planejamento cotidiano de compras domésticas.
Para varejistas parceiros, a integração a plataformas como o 99Compras representa uma oportunidade de ampliar alcance sem precisar construir infraestrutura própria de entrega ultrarrápida — o modelo aproveita o estoque já existente na loja física e transfere a complexidade logística de última milha para a plataforma parceira. Esse tipo de parceria tende a ser especialmente relevante para redes regionais e supermercados de bairro que não têm escala para desenvolver isoladamente uma operação própria de delivery competitiva.
O que esperar da expansão desse modelo
Com a chegada a São Paulo consolidando o maior teste de escala do 99Compras até agora, é provável que a companhia avalie expansão para outras capitais e regiões metropolitanas relevantes nos próximos meses, seguindo o mesmo padrão gradual já adotado desde o piloto em Goiânia. Para o mercado de e-commerce e delivery brasileiro como um todo, a entrada de mais um grande player nesse segmento reforça uma tendência já em curso — aplicativos que nasceram com propósito único, seja mobilidade ou delivery de comida, estão se transformando em ecossistemas completos, disputando cada vez mais frentes da rotina de consumo digital do brasileiro dentro de um único aplicativo.
A chegada do 99Compras a São Paulo confirma que a disputa pela compra recorrente do brasileiro deixou de ser exclusividade de plataformas especializadas em delivery e passou a atrair também gigantes de mobilidade dispostos a transformar seus aplicativos em ecossistemas completos de consumo. Para o varejo físico, essa movimentação amplia as opções de parceria logística disponíveis. Para o consumidor, mais um player relevante entra na disputa por conveniência e velocidade — um sinal claro de que o quick commerce brasileiro ainda está longe de encontrar seu formato definitivo.
FAQ
O que é o 99Compras e quando ele chegou a São Paulo?
É a vertical de entregas de supermercado, farmácia e itens de conveniência do aplicativo 99, controlado pela chinesa DiDi. O serviço chegou à cidade de São Paulo e a mais de 20 municípios da região metropolitana em 28 de julho de 2026, com investimento de R$ 100 milhões.
Como funciona a separação dos produtos nesse modelo de entrega?
O estoque permanece com os varejistas parceiros, e um funcionário da própria loja, chamado picker, é responsável por separar os produtos antes de entregá-los ao entregador parceiro da 99, que então realiza o transporte até o consumidor final.
Qual é o tempo médio de entrega informado pela empresa?
A 99 informa tempo médio de 24 minutos, embora o prazo real possa variar conforme a categoria do produto e o volume de demanda da loja parceira no momento do pedido.
Quais categorias de produto estão disponíveis na plataforma?
Supermercado, farmácia, pet shop, bebidas, floricultura, beleza, brinquedos, presentes e utensílios domésticos, com parceiros como Americanas, Atacadão, Carrefour, Cobasi, Petz e Ultrafarma já integrados.
Quem são os principais concorrentes do 99Compras nesse segmento?
iFood, Amazon, Mercado Livre e operações especializadas como Shopper e Daki já disputam esse mercado de entrega de itens de supermercado e farmácia no Brasil, cada um com estratégias distintas de parceria e infraestrutura logística.
Qual é o diferencial competitivo que a 99 busca explorar nesse mercado?
A integração do 99Compras à base já consolidada de mais de 60 milhões de usuários ativos do aplicativo de mobilidade, além da multimodalidade dos entregadores parceiros, que podem atuar simultaneamente em transporte de passageiros, entrega de refeições e agora também compras de conveniência.

