A IA já está influenciando as compras no Brasil e poucos lojistas estão preparados

A busca por produtos está mudando

Durante muito tempo, estar bem posicionado no Google, nos marketplaces ou nas redes sociais era suficiente para disputar a atenção do consumidor.

Agora, uma nova camada começa a entrar nessa jornada: a inteligência artificial.

Uma pesquisa do PYMNTS Intelligence em parceria com a Visa Acceptance Solutions mostra que mais da metade dos consumidores brasileiros utilizou IA durante sua jornada de compra mais recente. O estudo também aponta que os brasileiros registram, em média, 67 dias de compras digitais por mês, considerando diferentes atividades de descoberta, comparação e compra em dispositivos digitais.

O dado mais interessante, porém, aparece do outro lado da relação.

Enquanto o consumidor começa a usar IA para encontrar e comparar produtos, apenas 15% dos comerciantes brasileiros pesquisados afirmam ter informações de produtos estruturadas para que ferramentas de IA consigam interpretá-las.

É aí que surge uma nova disputa pela visibilidade.

O consumidor já está usando IA para decidir

A mudança não significa necessariamente que o cliente esteja pedindo para uma inteligência artificial finalizar uma compra sozinha.

O uso atual está muito mais ligado à descoberta, pesquisa e comparação.

O consumidor pode perguntar qual produto atende melhor determinada necessidade, comparar características, procurar alternativas dentro de um orçamento ou entender diferenças entre marcas.

Na prática, a jornada começa a ficar menos parecida com:

Google → loja → produto → compra

e mais próxima de:

pergunta → IA → comparação → produto → compra

Esse movimento muda uma questão fundamental para o varejo digital.

Não basta mais apenas ter um produto disponível. É necessário ter informações suficientemente claras, completas e estruturadas para que sistemas automatizados consigam entender o que é aquele produto, para quem ele serve, quanto custa, quais são suas características e onde pode ser comprado.

O problema pode estar dentro do próprio catálogo

Quando se fala em preparação para IA, é comum imaginar ferramentas sofisticadas, agentes autônomos ou sistemas de checkout.

Mas existe uma etapa anterior e muito mais básica: organizar os dados que descrevem o produto.

Nome, categoria, marca, características técnicas, dimensões, variações, preço, disponibilidade, imagens, informações de entrega e outros atributos precisam estar estruturados e consistentes.

Um catálogo mal preenchido pode até aparecer para um consumidor que já conhece a marca.

Mas ele pode ter mais dificuldade de ser compreendido por uma ferramenta que precisa responder a uma pergunta como:

“Qual é o melhor produto para quem procura X, dentro de determinado orçamento?”

Para a IA, não basta existir uma página.

Ela precisa conseguir interpretar aquela página.

O novo desafio do SEO pode ser a interpretação

O SEO tradicional continua importante, mas o cenário está ficando mais amplo.

Hoje, uma empresa trabalha para ser encontrada em mecanismos de busca, marketplaces, redes sociais e outros canais.

Com a expansão dos agentes de IA, surge mais uma preocupação: como fazer com que os dados da empresa sejam compreendidos por sistemas que não apresentam necessariamente uma lista tradicional de resultados?

Essa mudança está diretamente relacionada ao avanço do GEO, ou Generative Engine Optimization.

A lógica deixa de ser apenas tentar ocupar uma determinada posição em uma página de resultados e passa também a considerar a possibilidade de a marca ou produto ser utilizado como referência dentro de uma resposta gerada por IA.

Para um seller, isso coloca o cadastro de produto no centro da estratégia.

O consumidor está mais preparado que o varejo

O contraste apresentado pela pesquisa chama atenção.

Segundo o levantamento, 53% dos consumidores brasileiros disseram ter usado IA durante sua última jornada de compra online. Ao mesmo tempo, somente 15% dos comerciantes pesquisados afirmaram possuir dados de produtos estruturados para agentes de IA.

Existe, portanto, uma diferença entre a velocidade com que o comportamento do consumidor está mudando e a velocidade de adaptação das operações.

E essa diferença pode representar uma oportunidade.

Empresas que organizam melhor seus dados podem estar mais preparadas para um ambiente em que a descoberta de produtos acontece por meio de conversas e recomendações automatizadas.

O que o seller pode fazer agora

Não é necessário transformar toda a operação em um projeto de inteligência artificial de uma hora para outra.

O primeiro passo pode ser muito mais simples: tratar o catálogo como uma base de dados estratégica.

Revise os títulos dos produtos

O nome deve explicar claramente o que está sendo vendido.

Evite títulos genéricos, excesso de abreviações ou informações que dificultem a interpretação do produto.

Complete os atributos

Quanto mais estruturado estiver o cadastro, mais contexto existe para mecanismos de busca, marketplaces e sistemas de IA compreenderem a oferta.

Marca, modelo, material, tamanho, cor, capacidade, compatibilidade e outros atributos devem ser preenchidos quando fizerem sentido para a categoria.

Organize as descrições

Uma boa descrição não precisa ser um texto enorme.

Ela precisa responder às principais dúvidas do consumidor de maneira clara, objetiva e contextualizada.

Mantenha preço e disponibilidade consistentes

Uma recomendação de IA perde valor se o consumidor encontra um preço diferente ou descobre que o produto não está disponível.

A integração entre catálogo, estoque e canais de venda ganha ainda mais importância nesse cenário.

Pense nas perguntas do consumidor

Em vez de escrever apenas pensando em palavras-chave, pense também nas perguntas que alguém faria antes de comprar.

Isso ajuda a construir conteúdos que respondem à intenção de busca e fornecem mais contexto para sistemas de IA.

A IA não elimina a importância do marketplace

Esse movimento também não significa que os marketplaces perderão relevância.

Pelo contrário.

Marketplaces possuem grandes volumes de dados, avaliações, preços, disponibilidade, logística e comportamento de compra. Essas informações podem ser extremamente relevantes para sistemas que precisam comparar ofertas.

O que muda é que o consumidor pode começar a chegar ao produto por caminhos diferentes.

Ele pode descobrir uma oferta dentro do marketplace.

Pode encontrar uma marca no Google.

Pode receber uma recomendação em uma rede social.

Ou pode perguntar diretamente a uma IA.

A jornada fica mais distribuída.

Por isso, o desafio para o seller não é escolher entre marketplace, loja própria, redes sociais ou IA.

É construir uma operação capaz de funcionar bem em diferentes pontos de descoberta.

O comércio começa a ficar mais conversacional

A pesquisa também mostra que o consumidor ainda estabelece limites para a autonomia da inteligência artificial.

Segundo os dados divulgados pelo PYMNTS, 61% dos consumidores aceitariam que um agente pesquisasse e comparasse produtos, mas apenas 11% dariam acesso completo para que o agente conduzisse toda a operação.

Isso indica que a transformação não acontece necessariamente com o consumidor entregando o cartão para um robô.

Ela começa antes.

Começa quando a IA passa a participar da pergunta:

“O que eu devo comprar?”

Essa talvez seja uma das mudanças mais importantes para o e-commerce nos próximos anos.

Porque, se a IA participa da decisão, ser encontrado pela IA passa a fazer parte da disputa comercial.

O catálogo pode virar uma nova vitrine

Durante anos, o lojista pensou na vitrine como algo visual.

Depois, vieram o site, o marketplace, o Instagram, o TikTok e outros canais digitais.

Agora, existe uma nova possibilidade: a vitrine interpretada por inteligência artificial.

Nesse cenário, o produto precisa ser compreendido antes mesmo de ser apresentado.

O consumidor pode nunca entrar diretamente na página de uma loja durante a primeira etapa da jornada. Ele pode receber uma resposta que compara diferentes produtos e só depois decidir onde comprar.

Para os sellers, isso reforça uma lição que já vale para marketplaces e buscadores: dados bem estruturados não são apenas uma questão técnica. Eles fazem parte da estratégia comercial.

A próxima disputa pode acontecer antes do clique

O e-commerce está entrando em uma fase em que a competição não acontece somente pela posição do anúncio ou pelo preço apresentado na tela.

A disputa começa cada vez mais cedo, na etapa em que o consumidor define quais produtos merecem sua atenção.

A pesquisa da PYMNTS e da Visa mostra que essa mudança já está acontecendo no comportamento brasileiro, enquanto a preparação dos comerciantes ainda está em estágio inicial.

Para quem vende online, a mensagem é prática: organizar catálogo, dados, conteúdo e integrações deixou de ser apenas uma tarefa operacional.

Pode ser uma preparação para o próximo lugar onde o consumidor vai procurar o que comprar.


FAQ

O que é comércio orientado por IA?

É um modelo em que ferramentas de inteligência artificial participam da descoberta, pesquisa, comparação ou compra de produtos.

Os brasileiros já usam IA para comprar?

Sim. Uma pesquisa PYMNTS Intelligence/Visa indica que 53% dos consumidores brasileiros utilizaram IA em sua última jornada de compra online.

O que é agentic commerce?

É a evolução do comércio em que agentes de IA podem executar tarefas de compra em nome do consumidor, respeitando regras, permissões e limites definidos.

O que um catálogo precisa ter para ser compreendido por IA?

Informações estruturadas e consistentes sobre produtos, como nome, marca, categoria, atributos, preço, disponibilidade e características relevantes.

O que é GEO?

GEO significa Generative Engine Optimization e envolve estratégias para melhorar a compreensão e a presença de conteúdos e informações em mecanismos de busca e sistemas generativos de IA.

Marketplace continua importante com o avanço da IA?

Sim. Marketplaces continuam concentrando catálogo, avaliações, preços, estoque, logística e dados de compra, que são relevantes para a jornada digital.

O seller precisa usar IA imediatamente?

Não necessariamente. Um dos primeiros passos é organizar catálogo, dados de produtos, conteúdo e integrações para que a operação esteja preparada para novos canais de descoberta.

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