
Por anos, a discussão sobre inteligência artificial no varejo girou em torno de recomendações de produto, chatbots de atendimento e automação de precificação. Eram aplicações úteis, mas pontuais — ferramentas que tornavam partes da operação mais eficientes sem alterar a lógica central de como uma venda acontece. Isso está mudando. E o Brasil, surpreendentemente, está na linha de frente dessa mudança.
Uma pesquisa global publicada pela Visa na última semana de junho de 2026 revelou que 76% dos brasileiros pretendem usar agentes de IA para realizar compras — um índice quase o dobro do registrado nos Estados Unidos, onde apenas 44% dos consumidores declaram a mesma intenção. Mais do que uma estatística isolada, esse dado sinaliza uma transformação estrutural na relação entre o consumidor brasileiro e a tecnologia de compra, com consequências diretas para quem vende online.
O que é, de fato, o comércio agêntico
Antes de entrar nos números, vale clareza sobre o conceito. O agentic commerce não é um chatbot com mais recursos. É uma mudança de paradigma na jornada de consumo. No modelo tradicional, o consumidor navega em sites, aplica filtros, compara preços e lê avaliações. No agentic commerce, o usuário atua como “diretor” e a IA como “assistente de compras”. Basta definir a intenção: “preciso de um notebook com até R$ 3.000, entrega em dois dias”, e o agente resolve o restante: busca, compara, seleciona e finaliza a transação.
No agentic commerce, o consumidor deixa de navegar, comparar e escolher manualmente. Ele delega. Agentes de IA passam a buscar, comparar, negociar, decidir e executar compras em nome do usuário. Quem controla esses agentes controla a venda.
Essa lógica quebra décadas de construção do varejo digital em torno de interfaces visuais — sites, aplicativos, vitrines. A partir do momento em que a decisão de compra passa a ser mediada por um agente autônomo, o campo de disputa muda de lugar. A vitrine deixa de ser o ponto de conversão e passa a ser a qualidade dos dados que uma loja disponibiliza para ser interpretada por esses sistemas.
O Brasil na liderança global de adoção
O que a pesquisa da Visa evidencia vai além da intenção de uso. Entre os entrevistados brasileiros, 67% se dizem muito ou extremamente confiantes em permitir que agentes de IA realizem compras em seu nome. Nos EUA, esse percentual cai para 35% e em Singapura para 34%.
Ainda mais relevante é a percepção de controle: 57% dos brasileiros afirmam sentir que continuam no comando de toda a jornada, mesmo ao delegar tarefas a um agente autônomo. Esse dado derruba um dos principais obstáculos teóricos à adoção — o medo de perder autonomia sobre as próprias decisões de consumo.
A confiança também se estende ao compartilhamento de dados financeiros. 46% dos brasileiros dizem confiar no uso de suas informações de pagamento por plataformas baseadas em IA. Nos Estados Unidos esse índice atinge 23%; em Singapura, 24%. Para um ecossistema de pagamentos que já naturalizou o Pix, o WhatsApp como canal comercial e o pagamento por aproximação, essa abertura faz sentido. O consumidor brasileiro tem histórico de adoção acelerada de novos padrões digitais.
Da pesquisa para a operação real
O que diferencia este levantamento de uma projeção futurista é que o comércio agêntico no Brasil já saiu do papel. Em março de 2026, o Banco do Brasil e a Visa realizaram a primeira transação iniciada por um agente de Inteligência Artificial no Brasil, utilizando a plataforma Visa Intelligent Commerce (VIC).
A transação foi concluída com sucesso em ambiente de produção controlado. O cartão BB Visa do portador foi habilitado para o processamento, permitindo que o agente de IA realizasse o pagamento em nome do cliente com autorização iniciada por meio do Visa Intelligent Commerce. A autenticação, a tokenização e os controles de segurança foram suportados pela rede da Visa.
O modelo operacional dessa transação já aponta como o sistema vai funcionar em escala: o consumidor define parâmetros e limites previamente; o agente de IA busca produtos, compara ofertas e conclui a compra dentro dessas regras. A intervenção humana deixa de ser necessária em cada etapa da jornada, mas o controle estratégico permanece com o usuário.
Em abril de 2026, a Visa lançou no Brasil o programa Visa Agentic Ready, iniciativa global voltada a preparar o ecossistema de pagamentos para a chegada em escala do comércio agêntico. O movimento não é experimental. É a preparação de infraestrutura para o próximo ciclo do varejo digital.
Por que o Brasil tem vantagem estrutural
Não é coincidência que o consumidor brasileiro lidere os índices globais de confiança no comércio agêntico. O país tem três elementos que nenhum outro mercado combina da mesma forma.
O primeiro é o Pix. O Pix foi projetado desde o início como infraestrutura de pagamentos programática. Ele pode ser acionado via API sem exigir interação humana no ponto de pagamento — que é exatamente o que um agente de IA precisa. Com 79,8 bilhões de transações realizadas em 2025 e participação de mais de 54% em todas as transações brasileiras, o Pix é o meio de pagamento mais compatível com agentes de qualquer grande mercado global.
O segundo elemento é o WhatsApp. Mais de 93% dos smartphones no Brasil têm WhatsApp instalado. A plataforma já é a principal interface de comércio para milhões de empresas brasileiras: o canal em que clientes fazem perguntas, recebem confirmações de pedidos e, cada vez mais, concluem compras. É a superfície de confiança onde o comércio agêntico conversacional encontra terreno fértil.
O terceiro é o próprio perfil do consumidor. De acordo com a pesquisa E-Consumidor 2026 da Nuvemshop, 1 em cada 3 consumidores já usam o ChatGPT e o Gemini como personal shoppers nas compras online. A delegação da busca para IA não é uma novidade para o comprador brasileiro — é um comportamento em curso de normalização.
O que muda para sellers e operações
Para quem vende em marketplaces ou opera uma loja virtual, o agentic commerce coloca em xeque uma premissa central: a de que boas imagens, um bom anúncio e uma precificação competitiva são suficientes para vencer a concorrência. Num ambiente onde a decisão passa por um agente autônomo, o que importa é o quanto esse agente consegue ler, interpretar e confiar nos seus dados.
Se os seus metadados não forem impecáveis, sua marca simplesmente deixa de existir para os agentes de IA que agora tomam decisões de compra em nome dos humanos. Título de produto, especificações técnicas, avaliações, disponibilidade de estoque em tempo real, prazo de entrega confirmado por API — tudo isso vira critério de seleção para agentes que operam em milissegundos.
Há também uma consequência direta para a lógica de performance em marketplace. Hoje, a disputa pelo Buy Box considera preço, reputação e logística. Num cenário agêntico, o agente vai comparar esses fatores de forma automática e, em muitos casos, vai ignorar qualquer seller que não consiga comunicar suas credenciais em formato legível por máquina. Não se trata de adaptar um anúncio — trata-se de repensar a arquitetura de dados de toda a operação.
Para o varejo, isso exige olhar específico para personalização, comunicação e pagamento dentro dessa jornada. O pagamento precisa estar integrado ao processo porque, no fim da jornada, o consumidor precisa concluir a compra de forma simples e segura.
Os marketplaces, por sua vez, estão diante de uma janela de oportunidade estratégica. Plataformas que se posicionarem como destinos preferenciais dos agentes — com catálogos bem estruturados, APIs abertas e integração com soluções de pagamento agêntico — tendem a capturar uma fatia desproporcional das transações mediadas por IA nos próximos anos.
O risco de não agir agora
O comércio agêntico segue a mesma curva de adoção acelerada que o mobile commerce e o Pix. Quem aguardou para ver “se o mercado adotaria” o pagamento instantâneo hoje compete com players que já dominam a recorrência e o relacionamento digital.
Segundo a Deloitte, o comércio agêntico pode movimentar até US$ 17,5 trilhões globalmente até 2030, transformando a forma como empresas operam e se relacionam com consumidores. Para as operações de varejo e marketplace, isso representa tanto uma oportunidade de eficiência sem precedentes quanto um risco real de invisibilidade para quem não se preparar.
O dado mais importante da pesquisa da Visa não é o percentual de intenção de uso. É o fato de que o consumidor brasileiro já se sente no controle mesmo ao delegar. Isso significa que a barreira psicológica de adoção é menor aqui do que em qualquer outro mercado mapeado. Quando a escala chegar, ela vai chegar rápido.
O agentic commerce não é uma tendência emergindo no horizonte — é uma infraestrutura sendo construída agora, com o consumidor brasileiro já posicionado na linha de frente da adoção global. O momento de entender as implicações para operações, catálogos e estratégias de marketplace não é amanhã. As primeiras transações em escala vão revelar quem estava preparado antes que o debate se tornasse obrigatório.
FAQ
O que é agentic commerce e como funciona na prática?
Agentic commerce, ou comércio agêntico, é o modelo em que agentes de inteligência artificial realizam etapas da jornada de compra de forma autônoma em nome do consumidor. O usuário define parâmetros — orçamento, preferências, prazo de entrega — e o agente busca produtos, compara ofertas e conclui a transação sem que seja necessária intervenção manual em cada etapa.
Já existe comércio agêntico funcionando no Brasil?
Sim. Em março de 2026, o Banco do Brasil e a Visa realizaram a primeira transação iniciada por agente de IA no país, utilizando a plataforma Visa Intelligent Commerce. A operação foi concluída com sucesso em ambiente de produção controlado, com autenticação, tokenização e controles de segurança suportados pela rede Visa.
Por que o consumidor brasileiro está mais disposto a usar agentes de IA para comprar do que americanos e europeus?
Combinação de fatores estruturais: o Pix criou familiaridade com pagamentos programáticos e sem atrito; o WhatsApp já é canal de comércio conversacional; e o histórico de adoção acelerada de novas tecnologias de pagamento reduziu a resistência comportamental. A pesquisa da Visa aponta que 76% dos brasileiros têm intenção de uso — quase o dobro dos 44% registrados nos EUA.
O que um seller precisa fazer para se preparar para o comércio agêntico?
O ponto de partida é a qualidade dos dados: títulos precisos, especificações técnicas completas, avaliações atualizadas, disponibilidade de estoque em tempo real e integração via API com plataformas de pagamento. Anúncios visualmente atrativos continuam importantes, mas precisam ser complementados por informações estruturadas que agentes de IA consigam interpretar e comparar automaticamente.
O agentic commerce vai substituir os marketplaces tradicionais?
Não substitui, mas transforma. Os marketplaces que estruturarem seus catálogos e infraestruturas para serem destinos preferenciais dos agentes de compra terão vantagem competitiva expressiva. O modelo agêntico tende a conviver com os canais existentes — assim como o mobile commerce coexistiu com o desktop — mas vai redefinir quem aparece nas decisões de compra mediadas por IA.
Quais são os riscos do comércio agêntico para o varejo digital?
O principal risco é a invisibilidade: operações com dados mal estruturados, APIs fechadas ou catálogos desatualizados simplesmente não serão selecionadas por agentes autônomos. Há também questões de segurança e fraude, já que transações automatizadas apresentam padrões de risco diferentes das compras humanas, exigindo sistemas de autenticação e antifraude adaptados para esse novo fluxo.

