O consumidor está deixando de pesquisar produtos e a IA começa a escolher por ele

O tráfego de IA para sites de varejo cresceu 4.700%. Entenda como o comércio agêntico pode mudar a descoberta de produtos.

Durante anos, uma das principais disputas do e-commerce foi conquistar posições nos mecanismos de busca. As marcas investiram em SEO, anúncios, conteúdo e páginas de produto para aparecer diante do consumidor no momento em que ele procurava alguma coisa.

Essa lógica começa a mudar.

Um estudo global divulgado pela Softtek aponta que o tráfego direcionado por assistentes de inteligência artificial para sites de varejo cresceu 4.700% em apenas um ano. Além de chegar em maior volume, esses usuários apresentam comportamento diferente: permanecem 32% mais tempo nas páginas, visualizam 10% mais conteúdo e registram uma taxa de rejeição 27% menor.

O dado mais importante, porém, não está apenas no crescimento do tráfego.

Ele está na mudança de comportamento que esse tráfego representa.

O consumidor começa a delegar parte da pesquisa, comparação e seleção de produtos para a inteligência artificial. Em vez de abrir várias abas, comparar preços e navegar por diferentes lojas, ele pode simplesmente explicar o que precisa e pedir para uma IA encontrar as melhores opções.

Para o e-commerce, isso cria uma nova disputa por visibilidade.

E dessa vez, a primeira pessoa a avaliar o produto pode não ser o consumidor.

Pode ser um algoritmo.

A jornada de compra está ficando mais agêntica

O comércio eletrônico tradicional depende de uma sequência relativamente conhecida.

O consumidor identifica uma necessidade, pesquisa, encontra produtos, compara alternativas, entra em uma loja ou marketplace e finalmente decide pela compra.

A inteligência artificial começa a encurtar esse caminho.

Segundo o levantamento da Softtek, 38% dos consumidores norte-americanos já utilizaram IA generativa para compras online. Entre os principais usos estão pesquisa de produtos, recomendações personalizadas e identificação de ofertas.

Isso cria uma nova dinâmica.

Em vez de perguntar apenas “onde encontro esse produto?”, o consumidor pode perguntar:

“Qual notebook é melhor para trabalhar e editar vídeos até R$ 5 mil?”

“Qual ração é mais adequada para um cachorro de pequeno porte?”

“Compare três celulares com boa câmera e bateria para uso profissional.”

A IA não precisa simplesmente apresentar resultados.

Ela pode interpretar a necessidade, filtrar opções e montar uma recomendação.

Essa mudança parece pequena do ponto de vista do usuário, mas é enorme para quem vende.

O produto precisa ser compreendido pela máquina

No modelo tradicional de SEO, a preocupação central era fazer uma página aparecer bem posicionada para determinadas palavras-chave.

No comércio influenciado por IA, surge uma camada adicional.

A informação precisa estar estruturada de maneira suficientemente clara para que sistemas de inteligência artificial consigam entender o produto, suas características e o contexto em que ele deve ser recomendado.

Isso envolve muito mais do que uma descrição bonita.

Preço, disponibilidade, especificações técnicas, dimensões, materiais, compatibilidade, condições de pagamento, prazo de entrega, política de troca e avaliações são informações que podem ajudar um sistema a determinar se determinado produto é adequado para uma necessidade.

O conceito de GEO, ou Generative Engine Optimization, ganha relevância justamente nesse contexto.

A pergunta deixa de ser apenas:

“Como fazer minha página aparecer?”

E passa a incluir:

“Como fazer meu produto ser compreendido e considerado por uma inteligência artificial?”

A descrição do produto ganha uma nova função

Durante muito tempo, descrições de produtos foram tratadas como uma etapa operacional do cadastro.

Em muitos marketplaces, ainda existem anúncios com textos genéricos, informações incompletas e especificações espalhadas de maneira desorganizada.

Isso pode se tornar um problema ainda maior em um ambiente no qual sistemas de IA precisam interpretar essas informações.

Uma descrição estruturada deve responder às principais dúvidas do consumidor antes mesmo que elas sejam feitas.

Não basta dizer que uma cadeira é “confortável e moderna”.

É mais útil explicar:

  • qual é o material;
  • quais são as dimensões;
  • qual é o peso suportado;
  • para quais ambientes ela é indicada;
  • como é feita a limpeza;
  • quais são seus diferenciais;
  • quem é o público mais adequado;
  • quais limitações o produto possui.

Esse tipo de informação aumenta a clareza para o consumidor e também cria um conjunto de dados muito mais rico para sistemas automatizados.

O conteúdo fora da loja também passa a importar

Existe outro ponto importante nessa transformação.

A IA não necessariamente depende apenas das informações disponíveis na página de venda.

Reputação, avaliações, artigos, comparações, menções em sites especializados, fóruns e redes sociais podem contribuir para a formação de contexto sobre uma marca ou produto.

Isso torna a autoridade digital ainda mais relevante.

Um seller que aparece apenas em uma página de marketplace possui menos contexto disponível do que uma marca que também tem presença em conteúdos especializados, avaliações detalhadas e diferentes canais digitais.

Na prática, a construção de autoridade passa a ajudar não apenas no SEO tradicional, mas também na capacidade de uma marca ser reconhecida como referência dentro de um determinado assunto.

A concorrência pode mudar de lugar

A transformação também pode alterar a forma como os sellers competem.

No modelo tradicional, uma página de resultados pode apresentar dezenas de produtos.

O consumidor escolhe entre eles.

Quando uma IA assume parte da filtragem, o conjunto de opções pode ser reduzido antes mesmo de chegar ao usuário.

Imagine que dez vendedores tenham produtos semelhantes.

Se um agente considerar apenas três opções como adequadas ao pedido do consumidor, sete concorrentes podem sequer entrar na etapa final de decisão.

Isso muda o valor da visibilidade.

Não se trata mais apenas de estar entre os primeiros resultados.

É necessário ser elegível para a recomendação.

Preço competitivo continuará sendo importante, mas pode dividir espaço com fatores como qualidade das informações, avaliações, disponibilidade, reputação, entrega e adequação ao contexto da busca.

O tráfego de IA pode ser menor, mas mais qualificado

Os números do estudo também indicam que o tráfego originado por IA apresenta características diferentes.

Os usuários permanecem mais tempo nas páginas e apresentam menor taxa de rejeição.

Isso pode indicar uma mudança importante na qualidade da visita.

Quando uma pessoa chega a uma loja porque pesquisou diretamente no Google, ela pode estar em diferentes momentos da jornada.

Já quando uma IA recomenda determinado produto dentro de uma resposta contextualizada, existe uma possibilidade maior de o usuário já ter passado por uma etapa de filtragem.

A visita pode chegar mais próxima da intenção de compra.

Isso não significa que todo acesso proveniente de IA terá maior conversão.

Mas indica que os varejistas precisam começar a medir esse canal de maneira diferente.

Não basta acompanhar volume de acessos.

Será necessário entender quem está chegando, por qual tipo de pergunta, quais produtos estão sendo recomendados e qual é o comportamento desses consumidores depois da visita.

O novo desafio para os sellers

Para os sellers, a mudança exige uma revisão de uma série de práticas que muitas vezes são tratadas como secundárias.

O primeiro passo é melhorar a qualidade dos dados dos produtos.

Depois, é importante construir conteúdo capaz de responder perguntas reais.

Um vendedor de eletrônicos, por exemplo, não deveria trabalhar apenas com páginas que descrevem especificações.

Pode produzir conteúdos respondendo dúvidas como qual produto é melhor para determinado perfil de usuário, quais características devem ser consideradas e quais diferenças existem entre modelos.

O mesmo vale para moda, móveis, beleza, ferramentas, produtos para pets ou qualquer outra categoria.

Quanto mais perguntas um conteúdo consegue responder com clareza, maior é seu potencial de participar de jornadas de descoberta mediadas por IA.

Os marketplaces também precisarão se adaptar

A transformação não afeta apenas os vendedores.

Marketplaces precisam garantir que seus catálogos sejam estruturados, atualizados e consistentes.

Informações de preço e estoque precisam acompanhar mudanças rapidamente.

Atributos precisam estar corretamente classificados.

Avaliações precisam oferecer contexto.

Produtos semelhantes precisam ser comparáveis.

E sistemas internos precisam conseguir disponibilizar essas informações para experiências de busca cada vez mais conversacionais.

Isso explica por que a inteligência artificial está deixando de ser apenas uma ferramenta de atendimento e passando a ocupar uma posição central na arquitetura do comércio eletrônico.

A IA pode atuar na descoberta.

Pode ajudar na comparação.

Pode recomendar.

Pode responder dúvidas.

E, em uma próxima etapa, pode participar diretamente da execução da compra.

A confiança será o limite da autonomia

Apesar do avanço, existe uma barreira importante: confiança.

O estudo aponta que 73% dos consumidores estão dispostos a delegar a descoberta de produtos a um agente de IA. A disposição diminui quando a tecnologia se aproxima da transação financeira. Privacidade, segurança e precisão aparecem entre as principais preocupações dos consumidores.

Isso sugere que o comércio agêntico não acontecerá de uma vez.

A tendência é que a autonomia aumente gradualmente.

Primeiro, a IA ajuda a pesquisar.

Depois, compara.

Em seguida, recomenda.

Mais adiante, poderá executar determinadas compras dentro de regras previamente estabelecidas pelo usuário.

Para o varejo, isso significa que confiança será tão importante quanto tecnologia.

O e-commerce precisa começar a se preparar antes da mudança ficar óbvia

O crescimento de 4.700% no tráfego originado por IA não significa que o modelo tradicional de e-commerce desapareceu.

Google, marketplaces, redes sociais, anúncios e lojas próprias continuarão sendo importantes.

A mudança é que uma nova camada está surgindo sobre esses canais.

O consumidor pode começar sua jornada em uma conversa com uma IA e chegar ao marketplace ou à loja virtual apenas depois que boa parte da pesquisa já tiver sido realizada.

Nesse cenário, estar online deixa de ser suficiente.

Ter bons produtos também não basta.

É preciso construir uma presença digital que seja encontrável, compreensível, comparável e recomendável.

O próximo grande desafio do e-commerce talvez não seja conquistar o clique.

Pode ser conquistar a recomendação.

E, quando a inteligência artificial começar a decidir quais produtos merecem chegar até o consumidor, a qualidade dos dados, a reputação e a autoridade de uma marca poderão valer tanto quanto seu investimento em mídia.

FAQ

O que é comércio agêntico?

Comércio agêntico é um modelo em que agentes de inteligência artificial participam da jornada de compra, ajudando o consumidor a pesquisar, comparar, recomendar e, futuramente, executar compras.

O tráfego de IA para sites de varejo está crescendo?

Sim. Um estudo da Softtek apontou crescimento de 4.700% no tráfego direcionado por assistentes de IA para sites de varejo em um ano.

O que é GEO no e-commerce?

GEO significa Generative Engine Optimization e envolve estratégias para tornar conteúdos, marcas e produtos mais compreensíveis e relevantes para mecanismos de inteligência artificial generativa.

Como um seller pode preparar seus produtos para a IA?

O seller deve estruturar informações completas sobre produtos, manter preço e estoque atualizados, trabalhar avaliações e reputação e produzir conteúdos que respondam às dúvidas e necessidades do consumidor.

A IA pode substituir o Google nas compras?

Não necessariamente. A tendência é de coexistência entre buscadores, marketplaces, redes sociais, lojas próprias e assistentes de IA, com a inteligência artificial assumindo uma participação maior na etapa de descoberta e comparação.

Por que avaliações são importantes no comércio agêntico?

Avaliações ajudam a fornecer contexto sobre a experiência real com um produto e podem contribuir para que sistemas de IA avaliem qualidade, adequação e confiabilidade antes de recomendar uma opção.

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