O Magalu agora vende dentro do Mercado Livre e o motivo revela como a guerra dos marketplaces mudou de tática

Magalu passa a vender 27 mil produtos, incluindo KaBuM! e Época Cosméticos, dentro do Mercado Livre. Entenda a lógica por trás dessa aliança.

Há poucos anos, a ideia de o Magazine Luiza vender produtos dentro da vitrine do Mercado Livre soaria como rendição competitiva. Nesta quarta-feira, 2 de setembro, essa ideia virou operação real. O Magalu passou a comercializar cerca de 27 mil produtos do próprio estoque — o chamado modelo 1P, em que a varejista vende diretamente, não apenas intermedia vendedores terceiros — dentro do maior marketplace do país, com entrega realizada pelo Magalog, seu braço logístico próprio.

O acordo não se limita à marca principal. Ele inclui também o portfólio da Época Cosméticos e do KaBuM!, e-commerce de games e informática do mesmo grupo, com categorias que vão de móveis e linha branca a TVs, computadores e celulares. É a segunda grande aliança do tipo fechada pelo Magalu em poucos meses — três meses antes, a varejista já havia levado produtos para dentro da Amazon. Duas movimentações que, juntas, desenham um retrato bastante específico de como os grandes players do e-commerce brasileiro decidiram competir em 2026.

“Cooperação e coopetição” — a frase que resume a nova lógica

Ao explicar a decisão, Frederico Trajano, CEO do Magazine Luiza, resumiu a mudança de mentalidade por trás desse tipo de acordo em uma frase direta — as fronteiras competitivas estão menos claras, e existe hoje um espaço muito grande de cooperação entre empresas que, em outras frentes, seguem disputando o mesmo consumidor. Do lado do Mercado Livre, Fernando Yunes, vice-presidente executivo da companhia na América Latina e líder da operação brasileira, reforça a mesma lógica sob outra perspectiva — o Magalu traz sortimento, condições de preço e capacidade logística que a plataforma não tem com a mesma força em algumas categorias específicas, especialmente produtos pesados, games e eletrônicos, com o KaBuM!, e cosméticos, com a Época.

Esse tipo de argumento evidencia que a parceria não nasce de uma posição de fraqueza de nenhum dos dois lados, mas de um cálculo relativamente simples sobre onde cada empresa é mais forte. O Mercado Livre tem a maior audiência do país. O Magalu tem infraestrutura logística e sortimento consolidado em categorias específicas de maior complexidade operacional, como itens pesados. Juntar essas duas forças, em vez de competir isoladamente em cada uma delas, é a aposta comum às duas companhias.

O tamanho da diferença que está em jogo

Os números ajudam a entender a urgência do lado do Magalu. Segundo o Instituto Retail Think Tank, o Mercado Livre liderou o ranking de marketplaces brasileiros em 2025, com GMV estimado em R$ 185 bilhões. O Magalu, com R$ 44,3 bilhões, ficou em terceiro lugar, atrás inclusive da Shopee. Entre abril e junho de 2026, o Mercado Livre reportou GMV global de US$ 21,9 bilhões, alta de 44% na comparação anual, com 795 milhões de itens vendidos e 89,3 milhões de compradores únicos ativos — uma escala que nenhuma varejista brasileira isolada, por maior que seja, consegue replicar sozinha em prazo curto.

Diante dessa diferença, Trajano já fez a conta de qual deve ser o retorno específico dessa parceria para o próprio Magalu — segundo o executivo, a estimativa interna é que três quartos dos clientes que comprarem produtos do Magalu dentro do Mercado Livre sejam consumidores novos para a varejista, gente que hoje não compra em nenhum canal próprio do grupo.

Por que a Netshoes também deve entrar nesse pacote

O acordo já sinaliza expansão para outra frente do ecossistema Magalu — a Netshoes, braço de artigos esportivos do grupo, também deve integrar essa parceria. Segundo Trajano, a indústria da moda esportiva impõe restrições específicas para operações mais generalistas, o que torna as negociações de produto um pouco mais lentas de viabilizar tecnicamente, mas o movimento segue em curso.

A ampliação desse leque de cooperação não para na venda de produto. Está em avaliação também a possibilidade de as lojas físicas do Magalu funcionarem como ponto de retirada e devolução para produtos vendidos por qualquer parceiro do Mercado Livre, além do uso do Magalog para realizar entregas de terceiros dentro da própria plataforma do concorrente. Segundo Trajano, o Mercado Livre hoje entrega 95% dos produtos que vende com estrutura própria, mas existe espaço para usar os serviços do Magalog, sobretudo na modalidade rodoviária de produtos pesados — justamente a lacuna que Yunes já havia apontado como ponto fraco relativo da própria operação logística do Mercado Livre.

O padrão que já vinha se repetindo com outros varejistas

O Magalu não é pioneiro nesse tipo de aliança dentro do Mercado Livre. Antes dele, a Casas Bahia já mantinha parceria semelhante na categoria de móveis, e a própria plataforma vem ampliando esse tipo de acordo com outros grandes players de segmentos distintos, incluindo Assaí, Carrefour e GPA. Segundo Yunes, mesmo com a Casas Bahia atravessando processo de recuperação judicial desde julho, a parceria entre as duas empresas seguiu gerando resultados positivos para o Mercado Livre — um dado que reforça que esse modelo de cooperação tende a funcionar de forma relativamente independente da saúde financeira específica de cada parceiro comercial isolado.

Yunes também contextualiza a consolidação do setor de eletroeletrônicos e móveis no Brasil nos últimos anos — segmento que antes reunia Magalu, Casas Bahia, Americanas e Ricardo Eletro como principais players. Com a saída da Ricardo Eletro do mercado e o praticamente desaparecimento da Americanas no ambiente online, restaram Magalu e Casas Bahia como protagonistas relevantes dessas categorias, ao lado de operações menores — um cenário de consolidação que ajuda a explicar por que o Mercado Livre tem interesse estratégico direto em garantir parceria sólida com ambas.

A Magalu Cloud e a lógica de monetizar infraestrutura própria

Esse tipo de movimento de abrir ativos próprios para terceiros não é exclusividade da relação com o Mercado Livre. O Magalu já aplica lógica semelhante em outras frentes do próprio negócio, como a Magalu Cloud, serviço de tecnologia e nuvem oferecido também fora do ecossistema da varejista. A ideia central, já testada antes por players como a própria Amazon globalmente, é que infraestrutura construída originalmente para sustentar a operação interna de uma empresa pode gerar receita adicional relevante quando oferecida também a terceiros.

Essa mesma lógica já vinha sendo aplicada ao Magalog desde 2024, através de acordos com players como AliExpress, Itaú Shopping, Americanas e Livelo, ganhando ainda mais força ao longo de 2026. Hoje, 30% da receita da operação logística do Magalu já é gerada fora dos limites da própria varejista, com clientes como Samsung, O Boticário, Renner e, de forma notável, até mesmo a Centauro — uma das principais concorrentes diretas da Netshoes, outra marca do próprio grupo Magalu.

O contexto que explica a urgência por escala

Por trás dessa sequência de acordos está um cenário específico enfrentado pelo Magalu em seus próprios números. No segundo trimestre de 2026, enquanto as vendas das lojas físicas do grupo cresceram 10,3%, para R$ 5,1 bilhões, o e-commerce recuou 11,9%, para R$ 9,3 bilhões, levando as vendas totais a uma queda de 5,1%, para R$ 14,5 bilhões. Segundo Trajano, o contexto que explica essa pressão é claro — a audiência do consumidor brasileiro está cada vez mais pulverizada entre diferentes plataformas, e o custo de aquisição de clientes subiu de forma significativa, intensificado pela concorrência acirrada entre marketplaces.

Diante desse cenário, a aposta do Magalu em parcerias como essa é justamente reduzir esse custo de aquisição, aproveitando a audiência já consolidada de outras plataformas em vez de competir sozinho pela mesma atenção cada vez mais cara. Segundo o CEO, a expectativa é que essa combinação de acordos — com Mercado Livre e Amazon — ajude a reverter a trajetória de queda do e-commerce próprio já no quarto trimestre deste ano.

O que muda na relação com a Amazon a partir de outubro

Enquanto a parceria com o Mercado Livre ainda está em fase inicial, o acordo já em andamento com a Amazon avança para uma nova etapa a partir de outubro. O Magalog passará a realizar entregas de produtos de terceiros diretamente na plataforma da Amazon, e o Magalu ganhará status equivalente ao de uma operação de estoque próprio dentro do marketplace americano — o que, segundo Trajano, traz vantagens concretas como prazo de entrega menor e prioridade no buy box, a posição de destaque disputada por vendedores dentro de uma mesma página de produto. Na prática, é como se o fulfillment da própria Amazon passasse a atender também os produtos do Magalu.

Como o Magalu evita conflito de preço entre tantos canais simultâneos

Uma pergunta natural diante dessa multiplicação de vitrines é como evitar guerra de preço entre canais próprios e parceiros. Segundo Trajano, o Magalu adota um preço-base único para todas as plataformas, sejam próprias ou de terceiros, e eventuais promoções específicas ficam por conta de cada parceiro comercial e de sua própria estratégia, sem impactar a margem da varejista. Essa estrutura, segundo o executivo, tem o benefício adicional de reduzir despesas financeiras internas, já que o financiamento ao consumidor final passa a ser responsabilidade da própria plataforma parceira, não mais do Magalu.

O que esse movimento revela sobre o próximo capítulo do e-commerce brasileiro

A entrada do Magalu no Mercado Livre, somada ao avanço simultâneo com a Amazon, reforça que a disputa entre os grandes players do e-commerce brasileiro entrou em uma fase que privilegia escala compartilhada em vez de território exclusivo. Companhias que historicamente se posicionavam como rivais diretas passam a reconhecer que audiência, sortimento e infraestrutura logística concentrados nas mãos de poucos players tornam mais eficiente somar forças em pontos específicos do que insistir em competir isoladamente em todas as frentes ao mesmo tempo.

Para o restante do mercado — sellers, fornecedores e outras varejistas de menor porte —, esse tipo de aliança entre gigantes reforça que a régua de competitividade dentro dos grandes marketplaces continua subindo. Categorias antes dominadas por poucos players consolidados tendem a ficar ainda mais disputadas com a chegada de operações que já trazem escala, reputação de marca e capacidade logística construídas ao longo de décadas, exigindo que operações menores encontrem, cada vez mais, formas específicas de diferenciação para continuar competitivas dentro desse ambiente.

A entrada do Magalu no Mercado Livre confirma que a próxima fase da disputa entre os grandes players do e-commerce brasileiro não será vencida isoladamente por nenhuma empresa sozinha, mas por quem souber combinar melhor audiência, sortimento e infraestrutura logística através de alianças estratégicas. Para o restante do mercado, esse tipo de movimento eleva ainda mais o padrão de competitividade dentro dos grandes marketplaces, reforçando que escala compartilhada, e não mais território exclusivo, é o que define quem sai na frente no varejo digital brasileiro em 2026.

FAQ

O que exatamente o Magalu passou a vender dentro do Mercado Livre?

Cerca de 27 mil produtos do próprio estoque da varejista, no modelo 1P, incluindo também o portfólio da Época Cosméticos e do KaBuM!, com categorias como móveis, linha branca, TVs, computadores e celulares, entregues pelo Magalog.

Por que o Magalu decidiu vender dentro de um concorrente direto?

Segundo o CEO Frederico Trajano, a lógica é de cooperação e coopetição — aproveitar a audiência consolidada do Mercado Livre para reduzir custo de aquisição de clientes, já que a estimativa é de que três quartos dos compradores nessa parceria sejam consumidores novos para o Magalu.

A Netshoes também vai vender dentro do Mercado Livre?

Ainda não formalmente, mas o acordo já sinaliza expansão para essa marca do grupo, embora negociações na categoria de moda esportiva costumem demorar mais para serem viabilizadas segundo o próprio executivo.

O que muda na parceria do Magalu com a Amazon a partir de outubro?

O Magalog passa a fazer entregas de produtos de terceiros na plataforma da Amazon, e o Magalu ganha status equivalente a uma operação de estoque próprio, o que traz vantagens como prazo de entrega menor e prioridade no buy box.

Como o Magalu evita conflito de preço entre suas diversas vitrines?

A empresa adota um preço-base único para todos os canais, próprios ou parceiros, deixando eventuais promoções específicas por conta da estratégia comercial de cada plataforma, sem impactar a margem da varejista.

Por que a logística do Magalu, o Magalog, atende também outras empresas?

Porque a infraestrutura construída para a operação própria pode gerar receita adicional quando oferecida a terceiros. Hoje, 30% da receita do Magalog já vem de fora do ecossistema Magalu, com clientes como Samsung, O Boticário, Renner e até a concorrente Centauro.

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