
Existe um padrão de comportamento que separa, de forma quase matemática, um comprador legítimo de uma tentativa de fraude no e-commerce brasileiro — o valor da compra. Segundo o mais recente Mapa da Fraude da Serasa Experian, o ticket médio das tentativas fraudulentas registradas em maio de 2026 foi de R$ 945,80, um valor 69% superior ao ticket médio das compras legítimas no mesmo período, de R$ 559,59. A diferença não é sutil, e revela algo importante sobre a lógica de quem tenta fraudar uma loja virtual — o objetivo raramente é volume, é maximizar o ganho em cada tentativa individual.
No total, o comércio eletrônico brasileiro evitou 110.867 tentativas de fraude somente em maio, o que representa um prejuízo potencial de R$ 107,6 milhões que deixou de acontecer graças às tecnologias de prevenção já implementadas pelo mercado — uma média de R$ 3,5 milhões em perdas evitadas por dia.
Por que o fraudador mira o ticket mais alto, não o mais fácil
A lógica por trás desse padrão de comportamento é relativamente direta do ponto de vista de quem comete a fraude. Segundo Rodrigo Sanchez, Diretor de Autenticação e Prevenção à Fraude da Serasa Experian, quando o valor médio das tentativas fraudulentas é significativamente maior do que o das compras legítimas, fica evidente que o fraudador busca maximizar o ganho em cada transação, em vez de simplesmente tentar volume alto de pedidos de baixo valor.
Essa constatação muda a forma como operações de e-commerce deveriam calibrar seus sistemas de prevenção. Muitas lojas ainda concentram esforços de segurança em transações de valor mais baixo, partindo do pressuposto equivocado de que compras de ticket elevado, por exigirem mais dados e maior exposição do comprador, seriam naturalmente mais seguras. Os dados mostram exatamente o oposto — é justamente nas transações de maior valor que a atenção precisa ser redobrada, porque é ali que o fraudador concentra seus esforços.
As três categorias que mais atraem fraudadores
Entre as categorias com maior volume de tentativas de fraude evitadas em maio, beleza liderou o ranking com 10.269 ocorrências, seguida por calçados, com 7.680 tentativas, e saúde, com 5.037. Segundo a Serasa Experian, essas categorias seguem sensíveis à atuação de fraudadores por reunirem características específicas — alto giro de estoque, ampla variedade de produtos e forte apelo de revenda no mercado paralelo, o que torna esses itens particularmente atrativos para quem pretende transformar rapidamente uma compra fraudulenta em dinheiro.
Um dado chama atenção especial nesse ranking — a ascensão da categoria de saúde, que vem substituindo eletrodomésticos no topo das categorias mais visadas, segmento que tradicionalmente liderava esse tipo de estatística por conta do valor elevado de seus produtos. Levantamentos anteriores da própria Serasa Experian já apontavam essa tendência no primeiro trimestre de 2026, associando parte desse crescimento à popularização de produtos de uso terapêutico de maior valor agregado dentro da categoria de saúde, itens que passaram a atrair a atenção de criminosos justamente por combinarem alto ticket médio com demanda crescente e legítima do consumidor.
O que essa mudança de padrão significa para sellers dessas categorias
Para lojistas que operam em beleza, calçados ou saúde, esses dados funcionam como um alerta direto sobre onde concentrar investimento em prevenção. Categorias de alto giro e ampla variedade de SKU, características comuns a esses três segmentos, tendem a dificultar a identificação manual de padrões suspeitos, o que torna ainda mais relevante o uso de ferramentas automatizadas de análise comportamental capazes de sinalizar transações fora do padrão em tempo real, antes da confirmação do pedido.
Isso não significa que outras categorias estejam livres de risco — significa que operações desses três segmentos específicos precisam tratar prevenção à fraude como parte estrutural da operação, não como camada complementar acionada apenas depois que o problema já causou prejuízo. A combinação entre alto ticket médio de fraude e alto volume de tentativas nessas categorias eleva consideravelmente o potencial de dano financeiro caso os sistemas de proteção não estejam devidamente calibrados.
Como funciona a defesa que já evita bilhões em prejuízo
O dado de R$ 107,6 milhões evitados em um único mês ilustra a escala do problema, mas também a eficácia das tecnologias de prevenção já disponíveis no mercado. Segundo a Serasa Experian, a estratégia mais eficaz combina autenticação robusta, inteligência de dados e análise transacional em tempo real — um tripé que precisa funcionar de forma equilibrada para barrar riscos sem prejudicar a experiência do consumidor legítimo, que é justamente o ponto de maior tensão dentro de qualquer estratégia antifraude.
Sistemas de segurança excessivamente rígidos tendem a gerar um efeito colateral caro para o próprio negócio — recusar transações legítimas por excesso de cautela, prejudicando a conversão e a experiência de compra de clientes reais. Já sistemas frouxos demais deixam a operação exposta a prejuízos diretos, além de custos indiretos relacionados a chargebacks, disputas com operadoras de cartão e possível penalização da loja junto a adquirentes e bandeiras de pagamento. O equilíbrio entre essas duas forças é o que separa uma operação de e-commerce madura em segurança de uma operação vulnerável.
O que sellers de qualquer porte podem fazer a partir desses dados
Operações que ainda não têm camada dedicada de prevenção à fraude podem começar por passos relativamente simples e de baixo custo de implementação. Monitorar de perto transações com valor significativamente acima do ticket médio histórico da própria loja, especialmente em categorias sensíveis como beleza, calçados e saúde, já reduz parte relevante da exposição ao risco descrito pelos dados da Serasa.
Outra medida acessível é a adoção de autenticação em múltiplas camadas para compras de valor elevado, adicionando uma etapa extra de verificação sem necessariamente comprometer a fluidez do checkout para a maioria das transações, que seguem dentro de um padrão de risco considerado normal. Para operações de maior porte, investir em soluções de análise comportamental que cruzam múltiplos sinais — histórico do comprador, padrão de navegação, dados do dispositivo utilizado e velocidade de preenchimento do formulário de compra — costuma reduzir significativamente a taxa de fraude sem comprometer a taxa de conversão de clientes legítimos.
Um problema que cresce junto com o próprio e-commerce
O avanço constante dos números de fraude no comércio eletrônico brasileiro não deve ser interpretado como sinal de falha do setor, mas como reflexo direto do próprio crescimento do mercado. Quanto maior o volume de transações digitais no país, maior também se torna o interesse de grupos organizados dedicados especificamente a explorar vulnerabilidades desse ecossistema. Nesse contexto, tratar prevenção à fraude como investimento estratégico, e não como custo evitável, tende a ser cada vez mais determinante para a sustentabilidade financeira de qualquer operação de e-commerce, independentemente do porte ou segmento em que atua.
Os números do Mapa da Fraude da Serasa Experian deixam claro que a prevenção contra fraude deixou de ser uma camada opcional para se tornar parte estrutural de qualquer operação de e-commerce que queira crescer de forma sustentável. Entender o padrão de comportamento de quem tenta fraudar — mirando tickets mais altos, concentrando esforços em categorias específicas — permite que sellers de todos os portes direcionem seus investimentos de segurança com muito mais precisão, protegendo tanto a saúde financeira do negócio quanto a experiência do cliente que realmente pretende comprar.
FAQ
Qual foi o prejuízo evitado pelo e-commerce brasileiro com fraudes em maio de 2026?
Segundo o Mapa da Fraude da Serasa Experian, o e-commerce brasileiro evitou 110.867 tentativas de fraude em maio, impedindo um prejuízo potencial de R$ 107,6 milhões, o equivalente a uma média de R$ 3,5 milhões em perdas evitadas por dia.
Por que o ticket médio das fraudes é maior que o das compras legítimas?
Porque fraudadores tendem a buscar maximizar o ganho em cada transação individual, em vez de apostar em volume de compras de baixo valor. Em maio, o ticket médio fraudulento foi de R$ 945,80, valor 69% superior ao ticket médio das compras legítimas, de R$ 559,59.
Quais categorias de produto mais sofrem tentativas de fraude no e-commerce brasileiro?
Beleza lidera o ranking, seguida por calçados e saúde. Essas categorias são consideradas sensíveis por combinarem alto giro de estoque, ampla variedade de produtos e forte apelo de revenda no mercado paralelo.
Por que a categoria de saúde vem crescendo entre os alvos preferidos de fraudadores?
O crescimento está associado à popularização de produtos de uso terapêutico de maior valor agregado dentro da categoria, itens que elevaram o ticket médio do segmento e passaram a atrair mais atenção de criminosos, superando categorias tradicionalmente visadas como eletrodomésticos.
Como um seller pode reduzir o risco de fraude sem prejudicar a conversão de clientes legítimos?
Combinando autenticação em múltiplas camadas para transações de valor elevado com análise comportamental baseada em dados, como histórico de compra, padrão de navegação e dados do dispositivo, é possível identificar riscos com mais precisão sem adicionar fricção desnecessária para o comprador legítimo.
Fraude em e-commerce afeta apenas grandes operações ou também pequenos sellers?
Afeta operações de todos os portes. Embora grandes plataformas tenham mais recursos para investir em tecnologia antifraude sofisticada, pequenos e médios sellers também são alvo frequente, especialmente em categorias de alto risco como beleza, calçados e saúde, o que reforça a importância de medidas básicas de proteção mesmo em operações menores.

